Quinta-feira, 16 de Março de 2006
Nessa noite aguardávamos a ordem de fogo.

Nessa noite aguardávamos a ordem de fogo. Os 8,8 já tinham feito as suas experiências de tiro.

        A todo o momento era esperada ordem, ordem que faria falar os obuses. Escondendo com a palma da mão a chama do cigarro, aguardava-se a ordem de fogo.

        O oficial da bateria estava no seu P.C. junto ao telefone. A noite era escura, de uma escuridão negra. De súbito, claramente, desafiadoramente, soa a campainha do telefone de campanha. Em resposta a esse toque, ouvem-se murmúrios. Murmúrios do oficial de tiro.

        - Primeira secção para a alça X, fogo!!!

Da boca negra, ainda mais negra que a noite, e virada para a mata, surge um clarão. Um clarão e um estrondo que momentaneamente põe todos surdos. Nitidamente, como se fosse um som em alta-fidelidade, escuta-se o silvar da granada rompendo os ares: os ares negros da noite. Passados momentos, um estrondo infernal. Um estrondo repetido pelo eco das montanhas próximas. Depois, silêncio. Um silêncio de túmulo.

        Daí em diante, de cinco em cinco minutos, esse brutal som repetia-se como se fosse um arfar de um monstro nas últimas agonias. Nos últimos estertores. Durante uma hora houve movimento intenso, barulho infernal. O troar da artilharia era sobre-humano. Através da rádio chegavam-nos informações do PCT;

        - Tantos graus para a esquerda…

        - Tantos graus para a direita…

        - Alça X… Tantas jardas…

        A noite continuava a ser rompida, profanada, pelos clarões amarelos e azulados das descargas; até a própria noite se quedava admirada perante a ousadia dos homens que se tinham atrevido a entrar nas suas entranhas. As entranhas de uma noite de Angola que só permite o sussurrar dos insectos. Os insectos que se calaram perante a voz poderosa da Artilharia…

        Simultaneamente foi dada ordem de cessar-fogo. Houvera terminado aquele tempo de acção.

        Só nessa altura se ouviu um grito vindo da frente das peças. Grito de desespero. Toda a gente, como se obedecesse a uma ordem, se dirigiu para o local donde partira esse grito de angústia.

        Então surgiu aos nossos olhos o espectáculo de um corpo esfacelado pelos estilhaços da granada 8,8 que tinha caído a alguns metros da boca de fogo. Os estilhaços desse monstro de ferro e pólvora cortaram a um só tempo o coração de um soldado da bateria que no seu posto velava pela segurança dos seus camaradas.

        Tudo fora provocado pelo mau estado das cargas dessa granada assassina…

        Inglóriamente, mas no seu posto, morreu o soldado X da bateria da Artilharia Y, em operações na zona Z, do Norte de Angola, em tantos de…de mil novecentos e sessenta e…Foi este o comunicado final sobre as baixas sofridas pela Bateria de Artilharia Y…nas operações da zona Z do Norte de Angola…

 

 


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publicado por fercobanco às 15:36
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