Sexta-feira, 17 de Março de 2006
Uma nova posição

            Como que num sobressalto, reparei que por cima de mim se estendia um manto de verdura, por onde os raios solares pretendiam penetrar. Nessa calma manhã, o sol teimava em romper as trevas para dar origem ao dia. De momento não me lembrava onde estava. Olhei em redor e vi aqueles homens absortos pelo sono. Por um sono profundo. Tapados pelas mantas do Regulamento, por cima dos camuflados. Alguns dormiam por baixo das peças de artilharia, protegidos do cacimbo pelos monstros de aço. Outros dormiam nas suas tendas. A cerca de quinhentos metros começava a mata cerrada. Aquela mata impenetrável aos seus mistérios. A mata que guarda segredos da Natureza e dos homens. A mata que nós sabíamos conter terroristas.

            Novamente e preguiçosamente estendi o olhar em redor e comecei a notar os primeiros movimentos do pessoal a acordar. Braços que se esticam. Esfregar de olhos a tomarem contacto com o meio ambiente. Um meio ambiente ainda cinzento e coberto de cacimbo que tinha caído durante a noite.

            As sentinelas continuavam no seu turno, o último daquela guarda. A partir de certo momento, como se obedecessem a um sinal combinado e como impulsionados por uma mola invisível, todos se levantaram e trataram de fazer a sua higiene matinal, junto dos atrelados de água.

            Pouco depois toda agente tomava o seu pequeno-almoço.

            Este era o terceiro dia de operações. Seguiu-se o habitual momento de conversa.

            Um grupo de sargentos conversava, interrogando-se sobre o que seria esse dia de operações.

            O que se iria passar? As mais diversas hipóteses foram levantadas. Extractos de conversas eram apanhados no ar:

            - Sem dúvida que vai continuar o fogo dos 8,8.

            - Sim, mas certamente que será mais espaçado…

            Nos rostos surgiram expressões de satisfação. Finalmente íamos conhecer o que se passava. Finalmente algo iria acontecer.

            Passaram-se alguns minutos. Minutos de expectativa. Minutos de tensão. Minutos de ansiedade.

            Surgem os comandantes de secção. São gritadas ordens. Nesse momento, como que obedecendo a um sinal combinado, todo o pessoal se pôs em movimento. Toda aquela máquina de guerra rangeu nas suas estruturas e iniciou a acção. Toda a gente se dirigiu aos seus postos obedecendo às ordens que foram dadas.

            A pulso, são arrastadas as bocas-de-fogo e atreladas às GMC. As tendas são desmontadas. As granadas metidas novamente nos seus receptáculos dos carros de munições. A cozinha desmanchada. Os víveres empacotados e carregados. Toda a unidade, enfim, se encontrava em movimento. Toda a unidade se preparava para um novo destino, para uma nova etapa. Toda a unidade se iria deslocar para uma outra posição de tiro.

            Toda a gente se encontrava já pronta esperando a ordem de marcha. Ei-la que é dada. Nessa altura os motores põem-se em movimento e as viaturas arrancam, rumo ao seu novo destino. Rumo a uma nova posição. Uma posição de onde o tiro seria mais flagelador, de onde as bocas-de-fogo obrigariam os «turras» a desalojar e a saírem da mata. Uma nova fase havia começado naquela operação. Uma nova fase que iria possibilitar-nos viver intensamente a vida de uma bateria de artilharia em combate.


sinto-me:

publicado por fercobanco às 20:43
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