Sexta-feira, 5 de Maio de 2006
A guerra do «Pó de talco»

A permanência da Bateria naquela zona de intervenção já durava alguns meses. A par das actividades operacionais, o pessoal fazia os possíveis para passar o tempo do melhor modo durante as horas de folga.

            Desde as leituras às conversas de todo o teor, tudo se fazia para que o tempo passasse.

            Cerca de sete meses de abnegados sacrifícios. De recordações do lar e da família. Meses vividos num acampamento. Num acampamento de homens em guerra, num acampamento de homens afastados do dia a dia de uma vida normal e de paz. Enquanto correram os meses, várias quadras festivas se comemoraram. Aconteceram saudades disto e daquilo. Saudades da própria saudade. Neste desenrolar do tempo inexorável, do tempo insensível, o Carnaval aproximou-se. O Carnaval da época. O Carnaval desse ano, do ano da Graça do Senhor. A data quase passava despercebida se não fosse termos pegado num jornal. Um jornal que paradoxalmente anunciava «Bailes de Carnaval nos Clubes».Aí, a recordação veio. Aí, todos se lembraram, outra vez, do Mundo, não do «nosso» Mundo, mas sim do outro Mundo. Do Mundo que ficava a algumas centenas de quilómetros. Do Mundo dos prédios altos. Do Mundo do asfalto. Do Mundo dos automóveis bonitos. De automóveis de outras cores, sem o verde-azeitona dos nossos automóveis. Do Mundo das luzes de néon. Do mundo onde os outros estavam. Do Mundo onde os outros iam passar «a sua» noite de Carnaval. Do Mundo de «Bailes nos Clubes».

            Caiu sobre nós um mutismo de crianças mimalhas. De repente, alguém surgiu com uma lata de pó de talco nas mãos. O calor apertava e quase todos estavam em tronco nu. Alguém se lembrou de atirar a alguém com um pouco de pó de talco. Aí apareceu outra lata de pó de talco.

            Alguém atirou pó de talco a alguém. Num repente, como se obedecessem a um sinal combinando, toda a gente tinha nas mãos pó de talco. Toda a gente atirava aos outros pó de talco. Começaram as correrias, atrás deste e daquele com pó de talco. O outro aparecia com uma bisnaga de dentífrico, que, paulatinamente, punha na cara do camarada que se tentava escapar ou dava luta com pó de talco. Todos esses homens, num repente, e como se estivessem no país das neves eternas, apareceram cobertos de talco branco como a neve. Era o ar toldado de pó de talco. De gritos e risadas. De gargalhadas. Era um correr para a cantina à procura de pó de talco. Do maravilhoso pó que constituía um escape para as saudades, para as saudades do outro Mundo. Era o Mundo de «Bailes nos Clubes na noite de Carnaval», do Mundo das luzes de néon, dos automóveis não cor esverdeada, dos prédios grandes, das ruas asfaltadas, do Mundo fora do verde do capim e da mata. Daquela mata do Norte de Angola, do Mundo a centenas de quilómetros, do Mundo das «nossas» saudades…


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publicado por fercobanco às 01:14
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