Sábado, 15 de Julho de 2006
ANIVERSÁRIO
A tarde atingia o seu ponto máximo. As tonalidades avermelhadas que o Sol, a pôr-se,
emprestava ao Céu, faziam realçar o recorte das copas dos arvoredos, desenhando nessa tela imensa imagens grotescas como se um pintor surrealista delas fosse culpado.
            Em redor, a vista não alcançava os horizontes que escureciam.
            Já não era tarde. Era o princípio da noite.
            Na messe, um camarada perguntou:
            -Eh pá, que dia é hoje?
            -21!
            -…
            -21? Olha!...Hoje faço anos! - Disse um outro. - Já não me lembro se foi o Antero, se o Carvalho.Também não importa.
            Para ninguém importava quem fazia anos. O interesse pela frase, «…hoje faço anos», residia somente no pretexto do aniversariante pagar uns «copos». De viver algumas horas de maneira diferente.
            - A ideia brotou:
            - Eh pá tens que pagar qualquer coisa. Então faz-se anos e não se dizia nada? Ai o amigo!...
            - As palavras surgiram em catadupas e ficou assente que a data tinha de ser comemorada condignamente.
            O Canelas era o encarregado da messe dos oficiais. Ninguém como ele tinha jeito para a cozinha. Das suas mãos saíam bolos que causariam inveja a muitas donas de casa. Chamou-se o Canelas.Combinou-se a ementa: galinha corada com batatas fritas, fruta em calda e o bolo de aniversário. A seguir os velhos brandys e whiskys para aquecer. A festa começou logo.
            O tempo era pouco. Toda a «malta» ajudou a descascar batatas e a fritá-las. As galinhas já estavam prontas era só abrir as latas e passá-las pela frigideira. O tempo corria. Já passava da hora normal do jantar. O bolo de aniversário foi, afinal, um pudim instantâneo comprado na cantina. Saiu bem. Aliás o Canelas não deixaria que saísse mal.
            Estava em causa o prestígio do «mestre». Ele próprio dirigia as operações de cozinha. Todos os graduados «desajudavam» …O pretexto era beber umas «coisas». As piadas surgiam espontaneamente. O Carvalho contava a última história do seu Cuanhama natal. Tinha sempre uma história para contar. O Leite, de voz sui generis », lançava pela boca fora os seus «palavrões» a sublinhar esta ou aquela passagem da operação: «jantar de aniversário». O Nordeste engolia as sílabas. A malta «gozava-o». Os preparativos para o jantar à «lá minute» decorriam em bom andamento. Reinava a boa disposição. O álcool colaborava imenso. O «pato» do aniversariante não tinha voto na matéria. Era uma espécie de coluna de apoio, onde a rapaziada se encostava, de voz pastosa, deixando sair um arrastado… – Com q´em tão tu fazes anos…
            O nosso amigo lá ia respondendo:
            - É verdade…Hoje faço anos…
            E nestas respostas vinham misturados uma série de sentimentos.
            A saudade de outros aniversários vividos junto da família, dos amigos, da noiva.
            A nostalgia dessa saudade. Intimamente o aniversariante já estava arrependido de ter dito que fazia anos. Era tudo mais simples. O dia passava e no outro dia é que a lembrança surgiria. Nessa altura paciência. Já tinha acontecido. Todavia, essa confusão de sentimentos ia-se perdendo na razão directa do número de whiskys » bebidos. Uma névoa toldou-lhe os olhos.
            Uma palmada nas costas transportou o nosso amigo para o ambiente.
            - Com que então o menino hoje faz anos!...
            Um sorriso amarelo, uma batata frita metida na boca. Um «gaita» que está quente!
X
            O jantar foi servido. Comeu-se bem. Bebeu-se melhor. No fim surgiu o pudim a substituir o bolo de aniversário. Alguém se lembrou das velas. Como não havia, substituíram-se por umas velas de cera para alumiar mortos e altares. O festejado soprou. Toda a gente cantou o «parabéns a você». Algazarra. Palmas.Abraços ao «bebé do dia» que ia ficando com as costas a arder. O Bastos e o Coelho tocaram viola e cantaram. O Canelas também. A «malta» acompanhou fazendo coro. De copo na mão, o tempo passava. O sono foi tomando conta de alguns. O Zé Pedro, gordo que nem um abade, e de óculos na ponta do nariz, filosofava a um canto sobre a garota mulata que tinha em Luanda «linda como uma noite de luar».
            O Galvão, do alto dos seus quase 1,90m , dava conselhos paternais a que os óculos graduados emprestavam um ar solene.
            A pouco e pouco a reunião foi-se desfazendo. Recolhiam aos quartos.
            O aniversariante ficou até ao fim. Saiu da messe. Ergueu os braços espreguiçando-se, respirou fundo.Com movimentos vagarosos tirou um cigarro, meteu-o na boca, riscou um fósforo, acendeu o cigarro, aspirou profundamente o fumo. Gozou as delícias desse momento.
            Lentamente, deixou o fumo sair dos pulmões para a noite escura. Os contornos desenhados pelo fumo revelaram-lhe no seu subconsciente a imagem da Mãe.
            Os adultos vinte e três anos, desse Homem-rapaz , choraram…

sinto-me:

publicado por fercobanco às 00:47
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