Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2006
PRINCIPAIS ACTORES - SEIS DEZENAS DE SOLDADOS

 

As viaturas chegaram ao lugar previamente combinado. Daí para a frente tudo poderia acontecer. O pessoal desceu e preparou-se para dar início à caminhada.

Estávamos a cinquenta quilómetros da nossa base. O meio ambiente, aqui, apresentava-se diferente. A estrada, onde as viaturas tinham estacionado, marginava um morro, quase no seu vértice, lá ao fundo a paisagem era surpreendente. A configuração do terreno fazia os homens sentirem-se pequenos perante a imensidade da obra de Deus. Começámos a descer o morro depois da estrada ter sido abandonada. Descíamos com a ajuda do capim tão alto como os homens. Chegámos ao fundo. Seriam umas nove a dez horas de uma manhã que apresentava o sol na sua plenitude. Os homens suavam. O calor começava a fazer – se sentir com mais intensidade. Um dos homens levou a boca ao cantil. Como se fosse um sinal combinado, alguns imitaram o gesto. Toda a gente se encontrava parada aguardando instruções.

Os dois comandantes de pelotão conferenciavam. Passados alguns minutos as ordens surgiram num… «vamos por aqui» …

Instintivamente os homens, agrupados por secções, começaram a formar uma longa «bicha» com intervalos mais ou menos regulares entre todos. A enorme fila começou a palmilhar o terreno constituído por uma planície, em direcção a um ponto determinado que tal como se fosse os olhos de um hipnotizador parecia atrair aquela força de combate. Ao longe divisavam-se montes cujas bases apresentavam florestas densas, quais couraças, impenetráveis aos mais íntimos segredos.

            Num passo elegante com a arma colocada debaixo do braço, os homens formavam um todo com o pensamento posto na operação que acabara de ter início no momento em que fôramos «largados» na estrada.

            A disposição, de um modo geral, era estupenda, mas, com todos os sentidos alerta para o que pudesse surgir.

Lentamente, a coluna foi-se aproximando dos morros. Começou então a escalada do primeiro. Para um observador, colocado à distância, que no momento olhasse para a encosta, nenhum movimento de tropas se registaria na sua retina porquanto os camuflados faziam com que os homens em andamento se confundissem com a Natureza.

A subida continuou à custa de grandes esforços sísmicos tempos em tempos os homens levavam à boca o cantil, bebendo sofregamente a água, que havia perdido o seu sabor, em virtude dos comprimidos desinfectantes que se haviam dissolvido água era quente, quente em virtude do sol que nesse momento abrasava. Sol impiedoso que fazia os homens suar nesse percurso a caminho do ponto X, onde se presumia existir um «quartel-general e de reabastecimentos» terrorista.

Progressivamente o morro era escalado e começaram então a notar-se, recortados contra o horizonte, as silhuetas dos componentes daquele grupo de combate.

Depois de todos terem subido, os comandantes dos dois pelotões ordenaram um pequeno «alto» para descanso. Alguns homens tomaram posições de defesa imediata, a fim de velarem pela segurança dos seus camaradas.

No «platô» do morro, a uns duzentos metros do local onde nos encontrávamos, existia uma mata que se prolongava pela encosta contrária à que havíamos escalado.

Foi para aí que as atenções convergiram, transparecendo no olhar de quase todos os homens o respeito que nos impunha aquele arvoredo.

No entanto, de um modo geral, a calma transparecia em todas as atitudes dos sessenta e poucos homens.

Alguns minutos de conversa marcaram o tempo de descanso numa primeira fase da nossa caminhada.

Entretanto, o Céu cobria-se de nuvens prenunciadoras de chuva. Nuvens cinzentas. Nuvens que, impelidas pela força do vento, tapavam os raios do sol, de um sol quente de Angola. Esse movimento das nuvens lembrava ocorrer de uma cortina de teatro a fechar o primeiro acto daquela cena, em que eram principais actores seis dezenas de soldados.


sinto-me: BEM
tags:

publicado por fercobanco às 16:36
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


posts recentes

MEDO?...

UMA NOITE DE PESADELO

O ABRE-PICADAS, COMO EU L...

O NORDESTE...DE NOME PRÓP...

VEJAM COMO SOU FELIZ...

De ventre dilatado...Para...

O céu era negro

PRINCIPAIS ACTORES - SEIS...

Rumo ao local X da carta…

ANIVERSÁRIO

arquivos

Abril 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

tags

todas as tags

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds