Terça-feira, 2 de Janeiro de 2007
O céu era negro
Minutos depois, o comandante dos dois grupos de combate informava os comandantes de secção que o «alto de descanso» terminara. O céu, agora já negro pelas nuvens carregadas de água, ameaçava chuva a todo o momento. A «meia voz», os comandantes de secção dizem aos homens: - Vá, toca a levantar… - Deita fora o cigarro… - Não fala…vamos lá a pôr as armas em posição de fogo… - Cautela c’o capim… - Daqui p’ra a frente há «turras» …muita atenção… Lá detrás e de boca em boca, vem a ordem do comandante da coluna: - Em frente…não quero barulho…atenção à mata… Ao mesmo tempo, impulsionada pela ordem de comando, a coluna começou a movimentar-se. À frente ia um batedor afastando o capim, da altura de um homem, que se entrelaçava, vergado pelo peso do ar africano. Era necessária muita atenção para as minas contra pessoal. Um simples descuido, ou o afastamento brusco de um capim, poderia provocar a explosão de uma dessas armadilhas, se existissem. O céu negro fazia descer sobre a Natureza e sobre os homens, que naquele momento ali transitavam, um sentimento de enorme respeito e sobretudo de ansiedade. Nos rostos notavam-se as marcas vincadas da importância do momento presente e do seu significado. Todos tinham consciência de que se tornava necessário acabar com aquele acampamento de «turras», que se tinha assinalado no ponto X da carta. Tal acampamento era o ponto de partida do inimigo para incursões na zona da nossa bateria. Dali para acampamentos provisórios em locais próprios para emboscadas às colunas. Era preciso acabar com aquela situação. Fora este o objectivo. Havia em todos a certeza de que os contactos com o inimigo seriam estabelecidos. Todos os homens se inclinavam um pouco para a frente lançando os olhares sobre o ambiente e com a arma em posição de reacção imediata à emboscada.Ao mínimo indício de perigo, a acção seria pronta. A ameaça de chuva transformou-se de repente em certeza. A água caindo do céu em verdadeiras bátegas. Instintivamente, os homens viraram para o chão os canos das FN. Levantaram-se as golas dos camuflados e o quépi foi melhor «enterrado» na cabeça. A mão esquerda ia sobre a câmara da FN para proteger da água que caía. O dedo indicador, da mão direita, exercia um ligeiro toque no gatilho. Quase uma carícia. Um afago lento, doloroso, pronto a transformar-se em forte pressão que desencadearia o estrondo das metralhadoras. No meio de todo este movimento dos homens, o capim, tão alto como nós, impulsionado pela força do vento fustigava-nos o rosto, os braços e o corpo. Lentamente, a coluna progrediu em direcção à mata no platô do morro. A determinada altura, o comandante de pelotão fez sinal de alto e mandou as secções disporem-se para um envolvimento de entrada na mata à vista. Vagarosamente, as secções formando uma meia-lua vão progredindo em silêncio e sempre fustigadas pela chuva que caía. Tudo tinha que ser feito com precaução, para que os nossos movimentos não fossem detectados por possíveis vigias dos «turras» instalados na copa do arvoredo. O outro grupo de combate ficou em posição de espera. As secções dos extremos, do primeiro grupo de combate, avançaram um pouco mais e lentamente começaram a passar do capim para a orla da mata, homem por homem, numa rápida corrida. Sempre agachados. A chuva teimava em cair, em molhar os camuflados e a roupa interior. Por outro lado, o barulho da água, caindo, abafava os passos dos homens. Tomadas as posições na orla da mata, seguiu-se uma pausa. Pausa da expectativa, de ansiedade, de extraordinária atenção. 0 O tempo continuava a correr. Cada vez mais devagar. Sem barreiras no espaço. Sem a preocupação da intensidade dramática que ali se vivia. Todos agachados, na orla da mata, prendiam a respiração tentando ouvir o eco dos próprios passos. Nada se repetia, excepto o matraquear no terreno da chuva que levantava partículas de terra húmida. De terra com cheiro próprio. Nesse compasso de espera, aguardava-se a possível reacção do inimigo. O tempo continuou a correr. Nada aconteceu. Nem o próprio meio ambiente se alterou. Apenas se escutavam os barulhos próprios da mata. Então, o comandante de grupo de combate mandou avançar com todas as precauções: - Devagar! Ocultando dentro do possível o corpo atrás das árvores. Na mata, já a chuva não castigava tanto os corpos, totalmente encharcados. As copas do arvoredo ofereciam mais protecção. As botas levantavam a água que era chapinhada pela lama, agarrada às solas. As pegadas ficavam impressas no terreno. Deixavam bem marcado o trajecto dos homens. Progredia-se lentamente até ao interior da mata. À procura do possível acampamento terrorista. A chuva caindo, por entre as árvores oferecia um espectáculo belo, como se de raios solares se tratasse, em colunas diagonais, de um cinzento diferente. Percorrida toda a mata até à orla oposta que marginava o princípio da nova encosta, nada se viu. Nem sequer rastos recentes de que ali tivessem estado «turras» acampados. Um compasso de espera para descanso e, entretanto, a nós juntou-se o outro grupo de combate. Dentro da mata, mas junto à orla, foi montado o acampamento para essa noite. Nada de barulhos. Nada de cigarros. Nada de fogo. Os panos de lona serviram para nos abrigarmos da chuva que, impiedosa, teimava em cair alagando tudo e todos. A tarde cinzenta, muito embora fossem umas dezasseis horas, mais parecia noite cerrada. A chuva nessa altura abrandou. O céu continuava escuro, carregado de nuvens negras. Uma das secções localizou um trilho de «turras» por entre a mata. Foi montada a segurança e preparou-se a emboscada que surpreenderia os possíveis transeuntes. Entretanto, a tarde deu lugar à noite. Abriram-se as rações de combate. Comeu-se a única refeição desse dia. O almoço e o jantar de uma só vez, sem barulho, discretamente. Os pingos de chuva teimavam em cair, espaçados, poucos. O manto negro da noite cada vez se estendia mais sobre a terra. Tiritava-se de frio, por causa dos camuflados molhados. Foram designados os turnos de sentinela. Os homens enroscavam-se melhor nos panos de tenda. O silêncio voltou.

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publicado por fercobanco às 19:46
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