Sexta-feira, 20 de Abril de 2007
O ABRE-PICADAS, COMO EU LHE CHAMAVA...
   
         Apesar de tudo, aqueles vinte e cinco dias foram passados na mais sã camaradagem entre todos os elementos componentes dos dois grupos de combate.
            Tinham-se recebido ordens da base de operações, para regressar, logo depois da ponte reconstruída.
            Levantou-se o acampamento, recolheu-se o material nas viaturas e pusemo-nos a caminho. Felizes.Satisfeitos por regressarmos ao acampamento onde, pelo menos, havia uma refeição quente à nossa espera.
            Recebi ordens do comandante de pelotão, para que tomasse lugar na primeira viatura com a minha secção. Assim fiz. A meu lado o meu fiel “abre-picadas”, como lhe chamava. O pequeno Teixeira. Pequeno no tamanho, mas grande no seu comportamento de soldado. Calmo. Reflectido. Sempre pronto para as missões mais difíceis A nossa GMC arranca, e foi como se um sinal para que toda a coluna tomasse o andamento.
            Levávamos atrelado um depósito de mil litros de água. Em cima da viatura: mesas, cadeiras, móveis, espólio da nossa incursão em terras da serra da Kanda. Artigos apanhados aos terroristas. Várias colchas davam um ar garrido e alegre à coluna, como se fosse uma romaria. Romaria de homens de espingarda, de barba grande, cansados. Desejosos de regressarem à sopa de feijão quente, que o cozinheiro do acampamento preparava tão bem. Sim. Até porque as rações de combate já saturavam por terem que se comer frias, na maior parte dos casos…
            De repente, a coluna pára.
            A viatura, atrás da nossa, avariou. Descemos. Fomos ajudar a segunda viatura da coluna a retomar a marcha. Ah! Mas a tal GMC não queria andar. Parece que tinha jurado que nunca mais poderíamos comer descansados o tal puré de feijão quentinho que o 325 tão bem cozinhava.
            Lançou-se uma corda a um jipão e a coluna novamente se pôs em andamento, debaixo do sol, de um sol abrasador, quente, que prendia os movimentos, de um sol que emprestava à serra da Kanda matizes doiradas em reflexos das copas dos arvoredos. Olhei para trás. Vi aquela rapaziada, que tão bem conhecia, feliz, satisfeita, por voltar à base.
            Sem preocupações, apesar de sabermos que, à nossa volta, de um momento para o outro poderia começar o tiroteio, ou uma mina. Nunca se sabia.
            Todavia, cantava-se. Adivinhava-se o futuro. Um futuro que se deparava sorridente. Olhei para o Teixeira, o “abre-picadas” como lhe chamava. Disse:
            -Uf, que calor!
            O Teixeira sorriu. Olhou para mim e sorriu. Maquinalmente, levou a mão ao cachecol do camuflado e limpou uma gota de suor do pescoço. Ajeitou-se e colocou melhor a FN. Conversava-se.Toda a gente conversava. Por isto ou por aquilo. Só pelo prazer de falar. Só porque após vinte e cinco dias de mato, íamos dormir em camas, em colchões com lençois.
            Mais à frente, uma ligeira descida para um riacho seco, marginado por bambus.
            O condutor, com precisão, meteu o focinho da GMC em direcção ao riacho seco. Passaram as rodas da frente. As de trás. De repente, uma explosão. Gritos.Ai minha mãe! Ai meu Deus! Deus me ajude! Mãezinha querida!
            Fumo. Muito fumo negro. Negro como uma noite sem lua nem estrelas. Burburinho. Confusão. Ordens gritadas. Tiros. Rajadas. Dou por mim numa valeta.Ao lado da estrada. A meu lado vultos, ainda imprecisos, envoltos em fumo. No meio da estrada, corpos camuflados, manchados de vermelho. Um vermelho que se alastra. Olho mais acentuadamente. Um pouco mais calmo. Vejo o Teixeira, o “abre-picadas”, como eu lhe chamava, com o peito do camuflado desfeito, cheio de estilhaços, da mina.Pequeninos.Simples pontos incrustados no peito que arfava. Uma bota arrancada e só metade do pé. Sangue.Um dos testículos foi atingido.
            Sangue que banhava tudo aquilo. E gritos, dele, de todos. Uma voz de comando dizia:
            -Avance ao reconhecimento! Siga pela direita.
            Rajadas de metralhadoras tiros que iam. De tiros que vinham. De balas que zuniam por cima das cabeças. A bolsa dos medicamentos espalhada pela estrada. Tintura no chão. Naquele chão que absorvia e misturava tintura e sangue. Naquele chão sagrado pelo qual nós sofríamos. Nos batíamos. Naquele chão que magnânimo recebia os lamentos dos feridos, como que querendo levá-los às suas entranhas. Como que querendo guardar esse segredo do chamamento por uma mãe. Por Deus, por Nosso Senhor, pela Virgem.
            As pragas sucediam-se.Fortes.Viris.De homens ainda crianças. De homens de vinte e poucos anos, pretos, brancos, mestiços.Todavia, de homens que envergavam a mesma farda. Camuflados iguais. Sujos de poeira, de dormir no chão, de suor.
            Tal como tudo começara, tudo acabou. Um silêncio pesado, cruel, frio, que se abateu sobre nós. Sobre a Natureza. Até as aves se calaram. Nem as folhas das árvores se mexiam. Até o vento aquietou num silêncio de túmulo. Alguns minutos assim de silêncio. Como se o mundo tivesse acabado.
            Começaram a levantar-se os gemidos. Dos feridos. Dos que eram socorridos pelos enfermeiros. Por um que deitava sangue pelo nariz e tinha um braço esfacelado. O pior era o Teixeira, o mais ferido.
            Mas no entanto, aquele que tinha um sorriso nos lábios e nas mãos o crucifixo de ouro, que trazia ao peito, esse era o Teixeira, o “abre-picadas” como eu lhe chamava.
 
 

sinto-me:

publicado por fercobanco às 01:17
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