Sexta-feira, 20 de Abril de 2007
UMA NOITE DE PESADELO

Depois da explosão da mina que feriu o Teixeira, o “abre-picadas” como eu lhe chamava e após ter terminado todo aquele movimento e confusão, havia que pensar em evacuar os feridos.

            Assim se fez. Um dos grupos de combate fez escolta aos feridos. Foram evacuados, para a base dessa operação, para o Cuima. Na base da serra da Kanda, onde ela terminava, ou começava, o meu grupo de combate ficou emboscado, à espera… que os “turras” se fossem certificar dos resultados obtidos.

            O pelotão atingido montava a emboscada. O tempo passou. A tarde começou a cair, procurando o anoitecer. Seriam umas dezassete horas, quando o alferes mandou montar nas viaturas e regressar à base.

            À noite voltaríamos ao local. Rapidamente chegámos ao Cuima. Jantou-se. Voluntários se ofereceram para regressar ao sítio onde a mina explodira. De viatura avançámos até cerca de vinte quilómetros do objectivo. Aí, apeámo-mos das viaturas. A noite era negra. Viscosa. O cacimbo não deixava ver um palmo à frente do nariz.Se4ntiamos à distância os contornos da serra da Kanda. Impressionante, de estarrecer. Negra também como a própria noite, que nos cercava., fomos progredindo nas margens da estrada. Sentindo o camarada da frente, mas quase sem o descortinarmos. Sempre a andar.Com pressa em chegar ao local onde tinha rebentado a mina. Os ponteiros do relógio de quadrante luminoso indicavam que as vinte e três horas, já tinham acontecido há vinte e cinco minutos. Levávamos umas duas horas de caminho percorrido. O cacimbo começou a levantar-se. Notavam-se, agora, os camaradas da frente.

            Lembro-me que alguns caminhavam dormindo. Encostando as armas às costas do vizinho. Era uma sonolência bendita, na medida em que o cansaço não nos conseguia vencer. Expressamente proibido fumar. Lógico aliás! No entanto, talvez o fumo do cigarro nos ajudasse a vencer melhor o tempo. De repente, ouvimos nitidamente um apito longo, perto de nós. Instintivamente, deitámo-nos no chão. Ao longe um outro apito proveniente do facto de ter sido soprado um chifre de caça respondeu. Deitados no terreno, aguardámos os acontecimentos. Nada. Só a própria noite e os seus ruídos característicos nos responderam. Passaram-se cerca de quinze minutos. Levantámo-nos e a marcha continuou a caminho do objectivo. Alguns minutos decorridos, novo apito semelhante ao primeiro se ouviu. Novamente para o chão. À distância a resposta. Nessa altura já o cacimbo nos deixava olhar para o meio ambiente. Capim baixo lançava-se até à base da serra da Kanda, que ficava a uns seiscentos metros. Esse era o nosso lado esquerdo. Do lado direito, o capim ia misturar-se mais perto com as árvores. Núcleos de mata faziam desenhar, no horizonte visual, monstros indescritíveis, quais figuras fantasmagóricas de um arrepiante pesadelo.

            Mais tempo se passou. Novamente em marcha.Com os nervos em frangalhos, tensos. Dominados graças a um esforço titânico.Com uma vontade louca de abrir fogo para o capim.

            Os graduados tinham que se dominar e tentar dominar os soldados. O rastolhar das pequenas peças de caça provocava uma tensão arrepiante. Uma tensão que nos fez perder o sono e a noção do tempo.

            …Se ao menos um cigarrinho se pudesse fumar…Acalmava. Mas nem isso. Todas as atenções eram poucas. Havia que perscrutar o meio ambiente à espera, aguardando! Os passos quase que se não ouviam. Até a respiração era controlada, de modo a que não ajudasse a revelar a nossa posição. Tudo alerta.

~          De frente vem a voz sussurrada de:”Alto”. Ninguém se apercebia, sequer, que os relógios marcavam, nesse momento, quatro horas da manhã. Havíamos chegado ao local onde explodira a mina, no princípio da tarde do dia anterior. Rapidamente, os homens distribuíram-se pelos pontos estratégicos, que limitavam o riacho seco.

            Alguns ficaram de sentinela, outros tentaram dormir. Ninguém o conseguiu atrelado de água, que fizera explodir a mina ainda lá se encontrava, completamente desfeito como se um gigante possuidor de uma força poderosa, tivesse provocado o rasgar da chapa.

            Tudo no mesmo sítio. Da mesma maneira. Ninguém havia visitado o local. A manhã nasceu, bonita. Os que tinham montado segurança começaram a agitar os mais cansados. Tirando-os da semi – sonolência em que se encontravam.

            Na região limítrofe, foi feita uma pequena batida. A cerca de uns vinte metros do local onde nos encontrávamos, o cadáver de um “turra”. Abandonado com uma rajada de metralhadora nos intestinos. Estava encoberto pelo capim. Mais à frente e no “carreiro” que serviu para os turras s e desenfiarem, rastos de sangue demonstravam que tínhamos provocado, pelo menos, um morto e, provavelmente alguns feridos. Após essa verificação, comemos o “mata-bicho” e aguardámos as viaturas que nos viriam buscar, cerca das nove horas. Foi esta, talvez, uma das noites de maior angústia passada no norte de Angola.

 

 


música: Tchaikovski -Valse
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publicado por fercobanco às 19:07
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