Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2006
O reverso da medalha
jipjip.jip.bmp
Madrugada de um dia de serviço de guarda ao acampamento. Todos os postos de sentinela se encontravam vigilantes, velando pelo sono dos seus camaradas.
Nasce um dia. Um dia de sol, sol que lentamente começa a aquecer a terra estendendo por cima dos vales, planícies e montanhas o seu bafo de calor.
No acampamento começam a notar-se os primeiros movimentos daqueles que acordam.
Começa a vida normal de uma comunidade; uma comunidade com características especiais, uma comunidade de militares.
Pouco depois ouve-se o clarim, que com o seu estridente toque anuncia que o pequeno – almoço vai ser servido.
Daí em diante a azáfama aumenta progressivamente. A formatura concretiza-se. Faz-se a chamada. Não falta ninguém, excepto o pessoal de serviço.
Um pouco mais tarde, são os sargentos e oficiais que tomam o seu pequeno-almoço, entre anedotas que se contam ou relembrando um sonho em que uma qualquer curvilínea estrela de cinema foi a principal personagem.
Toda a gente toma depois os seus serviços normais. Os serviços que absorvem uma unidade que se encontra aquartelada num ponto, algures no Norte de Angola.
Saem patrulhas para a lenha que irá ajudar a fazer as refeições do dia. Outras vão à fruta e outras ainda irão pura e simplesmente fazer reconhecimento, no sítio X da carta topográfica onde se suspeitam movimentos inimigos.
Por acaso, chega nessa manhã ao nosso acampamento uma coluna proveniente de outra unidade que se encontra aquartelada a alguns quilómetros de distância.
Moços vindos da Metrópole, amigos nossos, com quem acamaradávamos. Um deles conta:
-Viemos trazer um terrorista ferido, para ser evacuado para o Hospital Militar de Luanda.
Depois soubemos. Essa unidade tinha montado armadilhas com granadas num local qualquer que estaria a seu cargo. Quinze dias depois haviam feito um reconhecimento no local. Encontraram um terrorista dos seus quarenta anos, com as pernas esfaceladas, cobertas de sangue. Da boca do homem souberam que era correio, e que, ao passar no local em direcção a outro ponto, tinha caído juntamente com mais outros dois na armadilha que havia sido montada. Só ele ficou ferido. Os outros abandonaram-no levando o correio e a arma. Há dois dias, sem comida, sozinho.
Após isso, o médico da tal unidade tenta tudo para o salvar. Depois de muita luta, foi levado para Luanda a fim de ser salvo.
Efectivamente não sabemos se isso aconteceu, mas vimos a maneira como era tratado. Seus olhos eram, tristes, talvez pela consciência do erro que houvera feito em relação a esses homens que o tratavam. Um erro provocado pela feitiçaria, por crenças que lhe foram incutidas. Todavia, nós vimos como toda a gente se preocupou com a sua vida.Com a vida de um indivíduo que lhes poderia ter tirado a própria vida e aí compreendemos como somos grandes, grandes em bondade e no amor pelo próximo.


publicado por fercobanco às 23:57
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Abril 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


posts recentes

MEDO?...

UMA NOITE DE PESADELO

O ABRE-PICADAS, COMO EU L...

O NORDESTE...DE NOME PRÓP...

VEJAM COMO SOU FELIZ...

De ventre dilatado...Para...

O céu era negro

PRINCIPAIS ACTORES - SEIS...

Rumo ao local X da carta…

ANIVERSÁRIO

arquivos

Abril 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

tags

todas as tags

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds