Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2006
Os homens que falam forte







Madrugada. Madrugada cinzenta. Madrugada do Norte de Angola. Primeiros raios solares. Raios ainda hesitantes que tentam perfurar a carapuça das nuvens de cacimbo cinzento, que oferece resistência à penetração. Todavia, aquele cinzento matinal vai lentamente deixando vir à luz os raios do astro-rei. De repente surge o sol em toda a sua pujança. Como se fora um sinal previamente combinado o movimento no acampamento intensifica-se.Ouvem-se os primeiros «roncos» dos motores. A bateria de artilharia prepara-se para uma das suas maiores operações. São formadas as viaturas. O pessoal recebe mantimentos e rações de combate. Recebe também as últimas instruções para essa grandiosa operação. Os obuses 8,8 estão alinhados na parada do aquartelamento, mais propriamente no local onde existe o campo de futebol da Unidade – campo de futebol feito por nós. Todos os artilheiros olham com ar apaixonado para essas bocas escuras que constituem os 8,8.Vai ser feita a primeira operação em que a bateria actuará como artilharia. Lá para os lados de…, algures no Norte, em qualquer mata onde os «turras» estão…Mas uma coisa é certa: - Vamos actuar como artilheiros…Dentro do nosso espírito…De homens que falam forte… As GMC estão prontas e têm já atrelados os obuses. Dão-se as últimas ordens. Experimentam-se as culatras. Tratam-se com cuidado, quase com carinho, as espoletas das granadas. Os radiotelegrafistas fazem as suas últimas experiência: -Alô «Tejo», daqui «Guadiana», diga em que condições estou a chegar ao seu posto.Escuto… Alô «Guadiana», daqui «Tejo». As suas condições de escuta são boas. Experimente a frequência seis virgula oito. Escuto… - Então 350, os atrelados estão prontos? -Meu capitão, a minha GMC tem qualquer coisa… -Meu furriel, onde ponho estas granadas?... -Bolas!...nunca mais «arrancamos» … Enfim…um desbobinar de palavras, de gritos de comando, de movimento, de acção, como se todos fizessem parte de um filme que estivesse a ser rodado… Até, que por fim… …Até que, por fim, o Capitão Castro, de pé, no seu jipe, levanta o braço e dá ordem de: - em frente!!! Todas as viaturas se põem em andamento, em direcção à saída do acampamento, virando à direita. Os que ficam seguem com os olhos esse cortejo de carros como uma cobra gigante a caminho da presa. Vão desfilando as viaturas num movimento uniforme, como se fossem controladas à distância por cérebro superior. Até que os que ficam vêem ao longe a poeira que os monstros mecânicos levantam na estrada. Poeira que se mistura com o horizonte. Poeira que cala bem fundo nos corações. Nos corações que muito no íntimo ficam rezando uma prece, uma prece de boa sorte. Eles vão com Deus… Havíamos saído do acampamento por volta do meio – dia. O Sol, bem no seu zénite, aquecia-nos os corpos e de certo modo as almas. Almas frias de expectativa, de ansiedade! De curiosidade! A paisagem era sempre igual. Própria do Norte, do Norte da Província, com capim, com árvores, com montes, com estradas cheias de poeira. É uma poeira castanha, uma poeira que obriga a usar nos rostos os lenços e os óculos dom regulamento. As GMC gemiam, arfavam, suspiravam por um descanso. Os 8,8 saltavam a cada pedra que surgia na estrada. Na estrada cheia de pedras, de buracos! De sulcos. Todavia, o semblante da maior parte dos homens era de interesse. Interesse sobra a nossa missão. Pela primeira vez, missão de artilharia. Até aí fôramos cassanhos. Isto quer dizer, Infantes. Sabíamos que desta vez iríamos actuar como artilheiros. Dentro da especialidade em que nos sentíamos absolutamente à vontade.


publicado por fercobanco às 16:05
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2006
O reverso da medalha
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Madrugada de um dia de serviço de guarda ao acampamento. Todos os postos de sentinela se encontravam vigilantes, velando pelo sono dos seus camaradas.
Nasce um dia. Um dia de sol, sol que lentamente começa a aquecer a terra estendendo por cima dos vales, planícies e montanhas o seu bafo de calor.
No acampamento começam a notar-se os primeiros movimentos daqueles que acordam.
Começa a vida normal de uma comunidade; uma comunidade com características especiais, uma comunidade de militares.
Pouco depois ouve-se o clarim, que com o seu estridente toque anuncia que o pequeno – almoço vai ser servido.
Daí em diante a azáfama aumenta progressivamente. A formatura concretiza-se. Faz-se a chamada. Não falta ninguém, excepto o pessoal de serviço.
Um pouco mais tarde, são os sargentos e oficiais que tomam o seu pequeno-almoço, entre anedotas que se contam ou relembrando um sonho em que uma qualquer curvilínea estrela de cinema foi a principal personagem.
Toda a gente toma depois os seus serviços normais. Os serviços que absorvem uma unidade que se encontra aquartelada num ponto, algures no Norte de Angola.
Saem patrulhas para a lenha que irá ajudar a fazer as refeições do dia. Outras vão à fruta e outras ainda irão pura e simplesmente fazer reconhecimento, no sítio X da carta topográfica onde se suspeitam movimentos inimigos.
Por acaso, chega nessa manhã ao nosso acampamento uma coluna proveniente de outra unidade que se encontra aquartelada a alguns quilómetros de distância.
Moços vindos da Metrópole, amigos nossos, com quem acamaradávamos. Um deles conta:
-Viemos trazer um terrorista ferido, para ser evacuado para o Hospital Militar de Luanda.
Depois soubemos. Essa unidade tinha montado armadilhas com granadas num local qualquer que estaria a seu cargo. Quinze dias depois haviam feito um reconhecimento no local. Encontraram um terrorista dos seus quarenta anos, com as pernas esfaceladas, cobertas de sangue. Da boca do homem souberam que era correio, e que, ao passar no local em direcção a outro ponto, tinha caído juntamente com mais outros dois na armadilha que havia sido montada. Só ele ficou ferido. Os outros abandonaram-no levando o correio e a arma. Há dois dias, sem comida, sozinho.
Após isso, o médico da tal unidade tenta tudo para o salvar. Depois de muita luta, foi levado para Luanda a fim de ser salvo.
Efectivamente não sabemos se isso aconteceu, mas vimos a maneira como era tratado. Seus olhos eram, tristes, talvez pela consciência do erro que houvera feito em relação a esses homens que o tratavam. Um erro provocado pela feitiçaria, por crenças que lhe foram incutidas. Todavia, nós vimos como toda a gente se preocupou com a sua vida.Com a vida de um indivíduo que lhes poderia ter tirado a própria vida e aí compreendemos como somos grandes, grandes em bondade e no amor pelo próximo.


publicado por fercobanco às 23:57
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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2006
De repente um tiro.
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De repente um tiro. Toda a coluna sofre uma modificação. Os carros da frente forçam a subida, acelerando. Os que ainda vão a descer param. Toda a gente salta para as valetas da estrada. Após o tiro, subitamente, cai um silêncio de morte.
Um silêncio profundo que deixa ouvir a respiração ofegante de toda a gente.
Os minutos passam. O silêncio continua profundo, absorvente. Sómente acompanhado pelos outros silêncios que vêm das matas, do capim. Nesse silêncio, se uma folha caísse poder-se-ia escutar o seu ruído.
Ao silêncio dos homens responde o da Natureza. Continuam passando os minutos, até que o comandante da coluna manda avançar, para reconhecimento, uma secção. Os homens levantam-se, calmamente, vagarosamente, com cuidado. Mas decididamente. Penetram na mata. O silêncio só foi quebrado por esse movimento de homens, armas aperradas, prontos a fazerem fogo.
Cerca de meia hora depois, ei-los de volta. Sem nada terem visto. Suados, calmos, conscientes do dever cumprido. Ainda hoje não se sabe qual a origem do tiro.



publicado por fercobanco às 02:24
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Sábado, 11 de Fevereiro de 2006
Um nascer do Sol
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Se o leitor já assistiu a um nascer do Sol no interior, estará, possivelmente, nesta altura, a sentir essa mística do dia que nasce, cobrindo a terra com o manto de alegria, de novas esperanças, de novas certezas. De certezas como aquelas que, na altura, todos sentiam. A certeza de amarem essa terra. De, por ela, serem capazes de todos os sacrifícios, até o da própria vida. Apreciando toda aquela maravilhosa beleza, seguiam os homens. Homens que envergavam uma farda, um camuflado.
De repente, é uma GMC que avaria. A coluna para. Todos, ou quase todos, descem. Alguns montam «segurança» ao longo dos dois lados da estrada. Outros fumam para aquecer «lá dentro». Para eliminar os últimos bocados de frio que teima em deixar os corpos, já nessa altura o sol começa a fazer sentir os seus efeitos. O mecânico dirige-se à GMC e com bons modos, como se falasse a um ente querido, exclama:
---- Então o que tem a «menina»?
O condutor responde:
--- Falhou de repente, ia engatada em segunda e foi-se abaixo!
Começaram os comentários.
Uns diziam: Hum! Deve ser das velas. ---Outros acrescentavam: --- não; é capaz de ser do filtro. ---Outros ainda rematavam: ---Com certeza que é o distribuidor. O mecânico dirigiu-se à cabina, e rodando a chave de ignição, fez com que a GMC desse um ronco, uns soluços, uns espirros e ei-la que começa a trabalhar.
--- A «menina» agora não vai falhar!
Alguns sinais e a coluna retoma a marcha. Toda a gente conversa. Quase todos fumam. Mas vão com atenção à paisagem, ao ambiente que os cerca, e, instintivamente, prontos a saltar ao mínimo barulho suspeito, ou ao mais pequeno sinal do comandante da coluna.
Pela frente, apresenta-se agora uma descida. Uma curva e contracurva ladeadas por dois morros cobertos de capim e arvoredo. Ao fundo, um pequeno vale, em cujo leito corre um riacho. Depois dos morros existe uma subida que obriga os condutores a meterem uma primeira a fim de que a encosta possa ser vencida!
A cerca duns duzentos a quatrocentos metros, a mata! Mata cerrada. Mata, cujas copas oferecem um escudo que se opõe à penetração dos raios solares. Mata do Norte de Angola! Os esforços dos carros são titânicos. Alguns começam a subir a encosta. Outros descem em direcção ao pequeno vale. Ouvem-se as risadas e incitamentos de todas as viaturas. A calma, à parte o burburinho próprio dos motores, é absoluta.
De repente um tiro…


publicado por fercobanco às 02:36
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