Sexta-feira, 20 de Abril de 2007
MEDO?...
            Aquele grupo de combate chegou ao nosso aquartelamento. A rapaziada salvou das viaturas e o caminho certo foi o da cantina. Iam ser bebidas as cervejas “da ordem”, para tirar a poeira da garganta.
            Entre os graduados estabeleceu-se uma amena “cavaqueira”. Como não podia deixar de ser, o tema era Guerra.
            E então contaram-nos:eSTUDANTINA
            -Pois só te digo, meu caro amigo, que me fartei de rir.
…………………………………………………………………………………………….
            A coluna seguia em escolta a camiões civis, que vinham de Nóqui. Coluna bastante extensa, levava, em três jeeps militares, as metralhadoras pesadas, montadas em tripé.
            Era um grupo de combate o total de tropas e cinco camionetas civis.
            A poeira entranhava-se nos poros, por entre um calor intenso que os raios solares espalhavam sobre a terra.
Apesar das precauções habituais, a “malta” ia descontraída, fumando o cigarrinho e conversando. Todavia, com os sentidos alerta para o que desse e viesse.
            Naquela altura, era hábito dos “turras”, antes de iniciarem um ataque dispararem um tiro de pistola que servia d e sinal para os restantes elementos que compunham a emboscada, darem início ao tiroteio de flagelação. Havia história de que isso tivesse acontecido umas duas ou três vezes.
            Por isso mesmo, os homens do grupo de combate além de prescutarem ansiosamente a mata com os olhos, iam de ouvidos bem abertos à espera que surgisse o tal tiro.
            A coluna estaria a cerca de uns 45 quilómetros do nosso aquartelamento. Ao longe recortavam-se contra o horizonte os perfis dos morros cobertos de capim amarelo e de árvores.
            A estrada serpenteava por entre morros e planícies, de vez em quando, cortada por um pontão, sobre um riacho.
            Como a distância que separava a coluna do acampamento já era pouca, a descontracção era cada vez maior.
            Ao descer a encosta de um morro, do lado direito da coluna e nitidamente ouviu-se um tiro de pistola.
            Se um observador atento estivesse à distância teria visto que, no minuto seguinte, ninguém já se encontrava em coima das viaturas.
            Os mais retardatários eram os condutores civis e militares, com o problema de abrirem portas para saltarem.
            Após este tiro, caiu sobre todos um silêncio pesado, só cortado pela respiração dos homens.
            Todos os olhares se dirigiam para a mata à espera de localizar o inimigo emboscado. Nada. Silêncio.
            O chilrear dos pássaros voltou a escutar-se. Uns dois ou três minutos decorreram.
            Uma ordem de …”avance ao reconhecimento” por este lado, foi ouvida a meia voz. Neste preciso momento em que os nervos estavam sujeitos a uma tensão nervosa que fazia os homens suarem, e quando se iam a levantar, escutou-se nitidamente, vindo de outro lado da mata, um apito que rasgou os ares fazendo arrepiar…
            De uma das bermas da estrada junto ao terreno, uma voz clara, firme, disse:
            -For’ó árbitro!...
            Uma gargalhada surgiu, ofendendo com o seu quê cristalino os deuses da guerra. Logo a seguir, sem mais nenhum compasso de espera, começou o tiroteio de ambos os lados.
……………………………………………………………………………………….
            Tempos passados e o apito mais vezes se fez ouvir antes do tiroteio, e então toda a “malta” dizia:
            Fora o árbitro…
 
 

sinto-me:
música: Estudantina Universitária de Coimbra -Tunas

publicado por fercobanco às 19:13
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UMA NOITE DE PESADELO

Depois da explosão da mina que feriu o Teixeira, o “abre-picadas” como eu lhe chamava e após ter terminado todo aquele movimento e confusão, havia que pensar em evacuar os feridos.

            Assim se fez. Um dos grupos de combate fez escolta aos feridos. Foram evacuados, para a base dessa operação, para o Cuima. Na base da serra da Kanda, onde ela terminava, ou começava, o meu grupo de combate ficou emboscado, à espera… que os “turras” se fossem certificar dos resultados obtidos.

            O pelotão atingido montava a emboscada. O tempo passou. A tarde começou a cair, procurando o anoitecer. Seriam umas dezassete horas, quando o alferes mandou montar nas viaturas e regressar à base.

            À noite voltaríamos ao local. Rapidamente chegámos ao Cuima. Jantou-se. Voluntários se ofereceram para regressar ao sítio onde a mina explodira. De viatura avançámos até cerca de vinte quilómetros do objectivo. Aí, apeámo-mos das viaturas. A noite era negra. Viscosa. O cacimbo não deixava ver um palmo à frente do nariz.Se4ntiamos à distância os contornos da serra da Kanda. Impressionante, de estarrecer. Negra também como a própria noite, que nos cercava., fomos progredindo nas margens da estrada. Sentindo o camarada da frente, mas quase sem o descortinarmos. Sempre a andar.Com pressa em chegar ao local onde tinha rebentado a mina. Os ponteiros do relógio de quadrante luminoso indicavam que as vinte e três horas, já tinham acontecido há vinte e cinco minutos. Levávamos umas duas horas de caminho percorrido. O cacimbo começou a levantar-se. Notavam-se, agora, os camaradas da frente.

            Lembro-me que alguns caminhavam dormindo. Encostando as armas às costas do vizinho. Era uma sonolência bendita, na medida em que o cansaço não nos conseguia vencer. Expressamente proibido fumar. Lógico aliás! No entanto, talvez o fumo do cigarro nos ajudasse a vencer melhor o tempo. De repente, ouvimos nitidamente um apito longo, perto de nós. Instintivamente, deitámo-nos no chão. Ao longe um outro apito proveniente do facto de ter sido soprado um chifre de caça respondeu. Deitados no terreno, aguardámos os acontecimentos. Nada. Só a própria noite e os seus ruídos característicos nos responderam. Passaram-se cerca de quinze minutos. Levantámo-nos e a marcha continuou a caminho do objectivo. Alguns minutos decorridos, novo apito semelhante ao primeiro se ouviu. Novamente para o chão. À distância a resposta. Nessa altura já o cacimbo nos deixava olhar para o meio ambiente. Capim baixo lançava-se até à base da serra da Kanda, que ficava a uns seiscentos metros. Esse era o nosso lado esquerdo. Do lado direito, o capim ia misturar-se mais perto com as árvores. Núcleos de mata faziam desenhar, no horizonte visual, monstros indescritíveis, quais figuras fantasmagóricas de um arrepiante pesadelo.

            Mais tempo se passou. Novamente em marcha.Com os nervos em frangalhos, tensos. Dominados graças a um esforço titânico.Com uma vontade louca de abrir fogo para o capim.

            Os graduados tinham que se dominar e tentar dominar os soldados. O rastolhar das pequenas peças de caça provocava uma tensão arrepiante. Uma tensão que nos fez perder o sono e a noção do tempo.

            …Se ao menos um cigarrinho se pudesse fumar…Acalmava. Mas nem isso. Todas as atenções eram poucas. Havia que perscrutar o meio ambiente à espera, aguardando! Os passos quase que se não ouviam. Até a respiração era controlada, de modo a que não ajudasse a revelar a nossa posição. Tudo alerta.

~          De frente vem a voz sussurrada de:”Alto”. Ninguém se apercebia, sequer, que os relógios marcavam, nesse momento, quatro horas da manhã. Havíamos chegado ao local onde explodira a mina, no princípio da tarde do dia anterior. Rapidamente, os homens distribuíram-se pelos pontos estratégicos, que limitavam o riacho seco.

            Alguns ficaram de sentinela, outros tentaram dormir. Ninguém o conseguiu atrelado de água, que fizera explodir a mina ainda lá se encontrava, completamente desfeito como se um gigante possuidor de uma força poderosa, tivesse provocado o rasgar da chapa.

            Tudo no mesmo sítio. Da mesma maneira. Ninguém havia visitado o local. A manhã nasceu, bonita. Os que tinham montado segurança começaram a agitar os mais cansados. Tirando-os da semi – sonolência em que se encontravam.

            Na região limítrofe, foi feita uma pequena batida. A cerca de uns vinte metros do local onde nos encontrávamos, o cadáver de um “turra”. Abandonado com uma rajada de metralhadora nos intestinos. Estava encoberto pelo capim. Mais à frente e no “carreiro” que serviu para os turras s e desenfiarem, rastos de sangue demonstravam que tínhamos provocado, pelo menos, um morto e, provavelmente alguns feridos. Após essa verificação, comemos o “mata-bicho” e aguardámos as viaturas que nos viriam buscar, cerca das nove horas. Foi esta, talvez, uma das noites de maior angústia passada no norte de Angola.

 

 


música: Tchaikovski -Valse
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publicado por fercobanco às 19:07
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O ABRE-PICADAS, COMO EU LHE CHAMAVA...
   
         Apesar de tudo, aqueles vinte e cinco dias foram passados na mais sã camaradagem entre todos os elementos componentes dos dois grupos de combate.
            Tinham-se recebido ordens da base de operações, para regressar, logo depois da ponte reconstruída.
            Levantou-se o acampamento, recolheu-se o material nas viaturas e pusemo-nos a caminho. Felizes.Satisfeitos por regressarmos ao acampamento onde, pelo menos, havia uma refeição quente à nossa espera.
            Recebi ordens do comandante de pelotão, para que tomasse lugar na primeira viatura com a minha secção. Assim fiz. A meu lado o meu fiel “abre-picadas”, como lhe chamava. O pequeno Teixeira. Pequeno no tamanho, mas grande no seu comportamento de soldado. Calmo. Reflectido. Sempre pronto para as missões mais difíceis A nossa GMC arranca, e foi como se um sinal para que toda a coluna tomasse o andamento.
            Levávamos atrelado um depósito de mil litros de água. Em cima da viatura: mesas, cadeiras, móveis, espólio da nossa incursão em terras da serra da Kanda. Artigos apanhados aos terroristas. Várias colchas davam um ar garrido e alegre à coluna, como se fosse uma romaria. Romaria de homens de espingarda, de barba grande, cansados. Desejosos de regressarem à sopa de feijão quente, que o cozinheiro do acampamento preparava tão bem. Sim. Até porque as rações de combate já saturavam por terem que se comer frias, na maior parte dos casos…
            De repente, a coluna pára.
            A viatura, atrás da nossa, avariou. Descemos. Fomos ajudar a segunda viatura da coluna a retomar a marcha. Ah! Mas a tal GMC não queria andar. Parece que tinha jurado que nunca mais poderíamos comer descansados o tal puré de feijão quentinho que o 325 tão bem cozinhava.
            Lançou-se uma corda a um jipão e a coluna novamente se pôs em andamento, debaixo do sol, de um sol abrasador, quente, que prendia os movimentos, de um sol que emprestava à serra da Kanda matizes doiradas em reflexos das copas dos arvoredos. Olhei para trás. Vi aquela rapaziada, que tão bem conhecia, feliz, satisfeita, por voltar à base.
            Sem preocupações, apesar de sabermos que, à nossa volta, de um momento para o outro poderia começar o tiroteio, ou uma mina. Nunca se sabia.
            Todavia, cantava-se. Adivinhava-se o futuro. Um futuro que se deparava sorridente. Olhei para o Teixeira, o “abre-picadas” como lhe chamava. Disse:
            -Uf, que calor!
            O Teixeira sorriu. Olhou para mim e sorriu. Maquinalmente, levou a mão ao cachecol do camuflado e limpou uma gota de suor do pescoço. Ajeitou-se e colocou melhor a FN. Conversava-se.Toda a gente conversava. Por isto ou por aquilo. Só pelo prazer de falar. Só porque após vinte e cinco dias de mato, íamos dormir em camas, em colchões com lençois.
            Mais à frente, uma ligeira descida para um riacho seco, marginado por bambus.
            O condutor, com precisão, meteu o focinho da GMC em direcção ao riacho seco. Passaram as rodas da frente. As de trás. De repente, uma explosão. Gritos.Ai minha mãe! Ai meu Deus! Deus me ajude! Mãezinha querida!
            Fumo. Muito fumo negro. Negro como uma noite sem lua nem estrelas. Burburinho. Confusão. Ordens gritadas. Tiros. Rajadas. Dou por mim numa valeta.Ao lado da estrada. A meu lado vultos, ainda imprecisos, envoltos em fumo. No meio da estrada, corpos camuflados, manchados de vermelho. Um vermelho que se alastra. Olho mais acentuadamente. Um pouco mais calmo. Vejo o Teixeira, o “abre-picadas”, como eu lhe chamava, com o peito do camuflado desfeito, cheio de estilhaços, da mina.Pequeninos.Simples pontos incrustados no peito que arfava. Uma bota arrancada e só metade do pé. Sangue.Um dos testículos foi atingido.
            Sangue que banhava tudo aquilo. E gritos, dele, de todos. Uma voz de comando dizia:
            -Avance ao reconhecimento! Siga pela direita.
            Rajadas de metralhadoras tiros que iam. De tiros que vinham. De balas que zuniam por cima das cabeças. A bolsa dos medicamentos espalhada pela estrada. Tintura no chão. Naquele chão que absorvia e misturava tintura e sangue. Naquele chão sagrado pelo qual nós sofríamos. Nos batíamos. Naquele chão que magnânimo recebia os lamentos dos feridos, como que querendo levá-los às suas entranhas. Como que querendo guardar esse segredo do chamamento por uma mãe. Por Deus, por Nosso Senhor, pela Virgem.
            As pragas sucediam-se.Fortes.Viris.De homens ainda crianças. De homens de vinte e poucos anos, pretos, brancos, mestiços.Todavia, de homens que envergavam a mesma farda. Camuflados iguais. Sujos de poeira, de dormir no chão, de suor.
            Tal como tudo começara, tudo acabou. Um silêncio pesado, cruel, frio, que se abateu sobre nós. Sobre a Natureza. Até as aves se calaram. Nem as folhas das árvores se mexiam. Até o vento aquietou num silêncio de túmulo. Alguns minutos assim de silêncio. Como se o mundo tivesse acabado.
            Começaram a levantar-se os gemidos. Dos feridos. Dos que eram socorridos pelos enfermeiros. Por um que deitava sangue pelo nariz e tinha um braço esfacelado. O pior era o Teixeira, o mais ferido.
            Mas no entanto, aquele que tinha um sorriso nos lábios e nas mãos o crucifixo de ouro, que trazia ao peito, esse era o Teixeira, o “abre-picadas” como eu lhe chamava.
 
 

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publicado por fercobanco às 01:17
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Quinta-feira, 19 de Abril de 2007
O NORDESTE...DE NOME PRÓPRIO...
Há por vezes factos que se retêm na memória durante muito tempo, apesar dos anos e das vicissitudes que a vida nos apresenta. Todavia, muitas vezes torna-se necessário fazer um certo esforço para nos recordar desta ou daquela personagem que connosco viveu determinados momentos.
Não conseguimos recordar-nos da personagem. ou melhor do seu nome, porém, lembramo-nos que era um engenheiro das Obras Públicas que estava colocado na ´
Área de São Salvador do Congo.
Certo dia, mais precisamente no dia em que chegámos ao aeroporto da capital do distrito do Zaire, e ao desembarcarmos do avião, fomos colhidos por uma notícia que profundamente nos tocou. Tinha sido ferido numa perna com uma rajada de metralhadora dos terroristas o engenheiro das Obras Públicas a que atrás nos referimos.
Quisemos saber pormenores e logo fomos informados de que tinha sido o pelotão a que pertencíamos, que houvera caído numa emboscada que os “turras” tinham montado na estrada que ligava São Salvador a Ambrizete. O resultado dessa emboscada tinha sido o ferimento produzido no civil que necessitando de se deslocar a um acampamento das Obras Públicas naquela estrada, aproveitou a nossa coluna.
Depois tivemos a oportunidade de saber através da boca do comandante de uma secção desse pelotão, o que verdadeiramente se tinha passado.
*
Deviam ser talvez umas quatro horas da manhã quando a coluna se pôs em andamento para escoltar algumas viaturas civis que se dirigiam para o Ambrizete. Como sempre, a paisagem era monótona.
Capim de um lado. Por vezes grandes núcleos de mata. Montes. Riachos. Sobretudo capim seco. Muito capim. Dois morros formando subidas e descidas que as GMC se viam desesperadas para vencer com pouca velocidade, como não podia deixar de ser. Grande esforço dos carros. No pessoal, grande expectativa. Nervos tensos à espera do pior. Contudo, nesse local, era hábito passar-se descontraidamente. Nas calmas, segundo a expressão usada. De certo modo o ambiente nas viaturas era à vontade. De descontracção. De repente, uma rajada de metralhadora. Saltos das viaturas para o chão. Para a valeta. De armas aperradas. Prontas a disparar. Tensas. Armas que conjuntamente com os homens constituem um todo. Um corpo único. As armas são qualquer coisa de que um militar não se separa na mata, ou em operações nem para fazer um dos tais chamados passeios higiénicos. A FN e nessa altura tão querida para um homem como a mãe ou namorada que estão longe. Algumas até chegam a receber os seus nomes.
Nomes em homenagem a esses entes queridos, que, à semelhança de uma mãe, também velam pela vida do soldado.
O Nordeste, perdão, eu vou apresentá-lo:
- O Nordeste era o Furriel Enfermeiro da Bateria. Era tão Nordeste como o próprio nome. Sempre alegre. Sempre com a cabeça no ar. Mas calmo. Muito calmo. Seguro dos seus actos. Das suas acções. Sabendo o que tinha a fazer. O Nordeste, dizia eu, debaixo do fogo cerrado. Já nessa altura bastante cerrado saltou do jipe e dirigiu-se com a bolsa dos medicamentos para o local onde o Engenheiro se encontrava deitando muito sangue do ferimento. Mas sem lamentos. O Nordeste, calmamente, sabendo o que fazia e debaixo de fogo intenso, começou a aplicar os primeiros curativos estancando a hemorragia, com um garrote. Enquanto isto, os restantes homens deitados na valeta ripostavam ao fogo dos “turras”.Há uma secção que avança ao reconhecimento. Há as viaturas deixadas na estrada. Algumas com os motores ainda a trabalharem. Uma com o vidro furado no local do condutor. A viatura da frente. Todavia, o projéctil já não encontrara no local o alvo a que era dirigido. Homens já metidos na mata tentando fazer um reconhecimento. Entretanto o tiroteio que durara escassos minutos tinha acabado. Como sempre o silêncio caiu sobre a terra. Sobre os homens. Sobre a natureza. Até as aves se calarem de comum acordo, respeitando aquele desencadear de fúrias humanas.
 
*
Mais tarde soubemos que esse engenheiro tivera a sua perna salva graças à intervenção pronta e eficiente do Nordeste, de nome próprio, notem.

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publicado por fercobanco às 20:54
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VEJAM COMO SOU FELIZ...

Salvo erro, porque fui à consulta externa no Hospital Militar, meteram-me na mão uma guia de marcha e, no aeroporto de São Salvador, tomei lugar no Nord Atlas, que me levaria a Luanda.

Aí a expectativa era grande.Imaginem::-Ir rever Luanda.Ir lá passar uns dias.Mesmo que se tratasse de ir ao médico.Nada importava.

Só o ir ver Luanda contava.

Do horizonte surge a gigantesca figura do Nord Atlas.Faz-.se à pista.Uns metros andados, por entre o ensurdecedor barulho dos motores.

A velocidade que abranda.Docemente,para no parque de estacionamento.A poeira levantada pelo "monstro", começa a poisar sobre nos.Todos se sacode.Param os motores.Abrem-se às portas e,detrás, sai a rapaziada.Camaradas que vinham de Luanda para aquela região, regressando às suas unidades, depois de umas férias, ou por qualquer outro motivo, até semelhante ao que me levava a Luanda.

Depois é a tripulação do " cama-couve-do-ar", que abandona a carlinga.Trocam-se  sdaudações.Aqui e ali rodas de militares que conversam.

Para um observador atento,as expressões daqueles que falavam de Luanda diziam tudo.Falavam por si.Deixavam antever as belas manhãs de praia e os passeios nocturnos ou o "fino" da Biker, ou dfo Polo Norte, ou do "rafiné" lanche das cinco na Versailles, ou ainda o esquecimento nos braços de uma mulher.

O quadro tornava-se num aperitivo para os que iam, ou no sabor desesperado do desejo para os que não iam.

Diverso pessoal procedia à descarga do Nord Atlas. Uma carga absolutamente idescritivel saía da "barriga" do avião.Ou eram frescos, ou carnes, ou jornais, ou material de guerra.Um "brique à braque" extraordinário se foi amontoando nas GMC e nos jipões, que ali se encontravam.

Depois era a partida: abraços, recomendações. As portas, que se fechavam, davam origem ao levantar de braços a dizerem adeus. Aqui ou além, uma correcta continência, cumprimentava este ou aquele graduado.Simultâneamente os turbo-reactores são experimentados em conjunto com os motores do Nord. Faz-se à pista.No rosto dos que ficam o intenso desejo de irem.Acelerações fortes definem a partida. A pista corre debaixo de nós. O 2focinho" do avião levanta-se para o ar.Lá em baixo tudo foge para trás.Tudo fica pequeno. Os homens e as casas.As nuvens são agora a meta.Lá dentro um barullho ensurdecedor, misturado com os mais diversos cheiros.No exterior as nuvens sucedem-se.Há que esperar. Lá em baixo vão surgindo povoações, sanzalas abandonadas, pantanos, rios que serpenteiam por entre a planície, morros aqui e além, extensões enormes de mata, extensões enormes de capim, estradas de um castanho-terra descrem curvas e contracurvas.Umas vezes desaparecem na mata, para voltarem a aperecer à frente.Dentro do Nord já se conversa.Fuma-se.Passa-se o lenço pelo rosto limpando o suor.O suor provocado pelo calor.Há quem enjoe.Há até quem vomite.Pergunta-se aos tripulantes:- Oh, amigo!Falta muito?...

Surge lá em baixo uma configuração diferente do terreno. É um terreno cor de cinza.Logo alguém diz:-Estamos sobre o litoral.Daqui a pouco vemods o mar.

E dando razão a quem falou, o mar beija as areias da praia lá ao fundo, as ondas repetem-se, como se dentro  desse enorme "lago" alguém tivesse deixado cair uma gigantesca pedra.Em determinados pontos, conseguimos ver o fundo do oiceano juntà praia.Na linha do horizonte mistura-se o azul do mar com o cinzento esbranquiçado das nuvens, não se distingindo onde acaba o mar e começa o céu.

Por baixo de nós a costa.Sempre a costa, até Luanda.

- Olha ali!

E aponta-se. Todos olham para a referência dada pelo indicador.Lá está o Cacuaco.Depois algumas zonas escarpadas sobre o mar.Por fim surgem os bairros periféricos do aeroporto.Antes, havíamos sobrevoado a Fortaleza, a Baía, a Ilha, a Marginal e os prédios. Os prédios de ferro e cimento. DCepois surge o  no smoking."Não fumar".O furriel mecânico, diz:-Não saiam dos vossos lugares.Lugares de "suma-pau".

Lugares que eram acima das caixas. Lugares em bancos corridos  de lona de um e doutro lado do avião.

Começamos perdendo altitude a caminho da pista. Os ouvidos zunem.A diferença d e presão causa o fenómeno.A pista aproxima-se, negra, de asfalto.Uma louca correria.Paragem junto à splacas da base aérea.Depois as formalidades de desembarque.Formalidades puramente militares.

*

Um táxi que espera...Para onde?...

-Leve-me...

Lá dizemos o local, e aí vamos desfilando pelas ruas da cidade.Primeiro a Avenida do Aeroporto.Depois a Mutamba, loucpomovimento.Atravessamos a <"capital" de Luanda.Bichas de gente à espera do auto carro.E olhamos.Olhamos para o ar.Para ver os prédios altos.E surgem os polícias sinaleiros empertigados na "peanha".Com movimentos enérgicos a dirigirem o trânsito.Ruído de gentr que atravessa as ruas, de automóveis que tyravam, dos ardinas a anunciarem:

- A Provincia dÀngola...Olha o Comércio...Oh patrão sai uma graxa?...

Pensei que reparassem em mim, no meu camuflado.Ninguém vê.Todos olham para dentro.De boca aberta, vejo o perfil de uma mulher bonita.Uma mulher que atravessa a rua.Num passo elegante.Altiva.DE negros cabelos caídos sobre os ombros.Alguém lhe diz um "piropo".Outro alguém ri....

Acordo de repente.Do meu sonho acordado.E dá-me vontade de ngritar, e a todos dizer:

-Vim do Norter.Estou em Luanda.Olhem para mim.Vejam como sou feliz!...


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música: P.I.Tchaikovsky
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publicado por fercobanco às 15:58
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Quarta-feira, 18 de Abril de 2007
De ventre dilatado...Parasitas e vermes na cabeça...

Rompeu a manhã.Com o nascer do dia, começou a notar-se o movimento dos homens prontos a seguir viagem.

Todos sabíamos que no local onde nos encontrávamos, já tinham sido detectados movimentos dos "turras".Aliás, o objectivo era estabelecer contactos.Se possível flagelá-los.

Com mira nessa ideia, começámos a nossa deslocação sempre protegidos pelas copas do arvoredo, sempre na orla da mata de maneira que à distância não pudéssemos ser descobertos.Entre todo o pessoal, instintivamente, estabeleceram-se distâncias de modo a que uma rajada de metralhdora não pudesse causar muitas baixas.

O camuflado misturava-nos com o meio ambiente.Fazia-nos passar despercebidos.

Aproximamo-nos do limite da floresta.Ao longe, os morros repetiam-se.Nas "linhas de água" a vegetação era mais verde.No cume, de alguns deles,havia denso arbusto que se espriguiçava  pela encosta, misturando-se com as árvores.Espectáculo quase sempre igual até onde os nossos olhos alcançavam."Antro" inimigo a protegê-los extraordináriamente.

Para além disso, todo o pessoal tinha consciência de que era necessário uma camuflagem eficiente, aproveitando a configuração do terreno.

A progressão continuou, calma, precisa,segura.Na vertente de um outro morro, que nesse momento comecáramos a descer, viam-se ao fundo as paredes de "adobo" do que havi sido uma "sanzala".

Algumas dessas "cubatas" ainda tinham o telado de capim.Temeu-se a possibilidade de que ali estivessem aquartelados os "turras".

Com calma, os homens obedeceram aos gestos do comandante dos grupos de combate e as secções começaram a progredir para um envolvimento da "sanzala".

Os sessenta homens, de armas aperradas, foram progredindo no terreno com todas as cautelas necessárias.Pouco a pouco a distância que nos separava da aldeia era vencida.

A cerca de unstrinta metros do capim, todos pararam, de dedo no gatilho, com os olhos postos nas "ruas" da aldeia, prontos a fazeren fogo, s e a ordem surgisse.

Algumas palmeiras limitavam a "sanzala", junto ao local mais próximo da "linha de água".Para ali convergiam,também, as nossas atenções.

Escassos minutos de espera, num silêncio total.Só o bater das folhas das árvores e os insectos eram ouvidos.Nada mais!O resto era tudo silêncio.Um silêncio que normalmente precede o tiroteio.

O comandante levanta o braço, e as secções da frente comecaram a avançar com os homens agachados, mas prontos a abrirem fogo.Uma pequena corrida e um dos soldados sai do capim, para a protecção da primeira cubata sem tecto.Outrop lhe seguiu o exemplo.Ainda outro e mais outro.Enquanto uns saíam do capim para dentro da aldeia, os outros iam, com movimentos furtivos, avançando de cubata para cubata, com os nervos tensos.DEbaixo de uma excitação sempre crescente.

Lá  no meio da sanzala, notou-se a pegade de um homem, pegada muito recente.Noutros lugares, outras de crianças, de homens e de mulheres certamente.

A tensão, provocada pela expectativa, era cada vez maior.De repente, surge a correr de uma das cubatas, num cacarejar maldito, uma galinha.Instintivamente, as armas viraram-se para o local.Um dos homens avançou.Lá dentro uma criança preta, de ventre dilatado e ranho no nariz, olhava para nós.

A imundície do local obrigava-nos a fechar os narizes, enjoados.Excrementos de aniomais domésticos em pestavam o ar.Era um rapaz.Um rapaz que aparentava uns cinco anos.Estendeu-nos os bracitols magros, cobertos por crostas de porcaria cinzenta.Todo ele perecia um esqueleto revestido de pele.A única nota discordante desse apectocadavérico era o disforme e grande ventre, que ostentava com dificuldade.Na negra cabecita os vermes e os parasitas passeavam.

Tudo isto se fazia acompanhar do zumbido das moscas que ora  tocavam pousando na porcaria, ora voavam para cima de nós.

Entretanto, lá for, continuava a batida à procura de mais gente.A linha de água, que marginava a aldeia, tinha recentes pegadas.Um caudal não muito grande era atravessado por um tronco que ligava as duas margens desse riacho.

Mais pegadas demonstravam que ali tinham eestado homens.Uma batida do outro lado da margem não revelou ninguém.

Progrediu-se, então, na margem esquerda do riacho, saindo da "sanzala" a caminho de uma mata mais densa, um carreiro ligava-a a essa mata.DEvidoàs chuvas do dia anterior, a lama abundava.Enquanto uma secção reforçada ficou a guardar a "sanzala", o resto do pessoal caminhava lentamente e com precaução a caminho do arvoredo.Uns numa margem, outros noutra.

Desembocámos numa clareira interior, com plantações de mandioca, ginguba e tabaco, além d e milho.Eram lavra da aldeia de que os "turras" se serviam para os reabastecimentos.

Tal local tinha servido, com certeza, de refúgio ao inimigo.As populações da "sanzala" teriam fugido, ao notarem a nossa aproximação, deixando uma criança abandonada.Assim acontecia, com frequência.Não era caso "virgem".

Ali permanecenos mais dois dias, transformando a "sanzala" em improvisada basede operações dce onde partíamos para diversos reconhecimentos.

A tensão era grande, já porque essa guerra, psicológica, o justificava.Em todos, a certeza de que o local foi base dos "turras".A aproximação, os vestígios deixados pelo inimigo, a criança abandonada, tudo isso nos levava a um estado de alma indescritivel.

Aquela criança abandonada transformou-se para nós em mais um motivo de ódio pelos "turras".

Estávamos em guerra há poucos anos.Ainda se desconheciam pormenores que hoje são lugres comuns nesta guerre imposta.

E a verdade é que,a maior parte dos homens que compunham a minha unidade ou eram de Angola, ou estavam cá radicados desde crianças.

O pretito, que encontrámos,comeu sofregamente as bolachas e o concentrado de figo e de "ginguba", que fazia parte  das rações de combate.De olhos Esbugalhados pela fome, aguardando avaramente o que lhe faltava comer, olhava para nós.De nariz sujo e olhos lacrimejantes.Por vestuário só um calção qiue devereia ter sido cinzento, mas que agora, todo roto e cheio de goirdura, era completamente negro.

Durante os dias que ali nos mantivémos, nem um único contactoi s eestabeleceu com o inimigho ou com quem quer que fosse.

Na retirada a aldeia foi destruida.A "lavra" também.Queimadasas cubatas para que não voltassem a servir de abrigo aos "turras".

Àdistância quedámo-nos a olhar.Em todos nós uma revolta interna surgiu contra quem era capaz de abandonar à sua sorte uma criança de cinco anos.

O próprio miúdo, at´

onito,deixava transparecer no olhar uma interrogação, que nós adultos não conseguimos decifrar.

 


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publicado por fercobanco às 23:34
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