Sexta-feira, 20 de Abril de 2007
MEDO?...
            Aquele grupo de combate chegou ao nosso aquartelamento. A rapaziada salvou das viaturas e o caminho certo foi o da cantina. Iam ser bebidas as cervejas “da ordem”, para tirar a poeira da garganta.
            Entre os graduados estabeleceu-se uma amena “cavaqueira”. Como não podia deixar de ser, o tema era Guerra.
            E então contaram-nos:eSTUDANTINA
            -Pois só te digo, meu caro amigo, que me fartei de rir.
…………………………………………………………………………………………….
            A coluna seguia em escolta a camiões civis, que vinham de Nóqui. Coluna bastante extensa, levava, em três jeeps militares, as metralhadoras pesadas, montadas em tripé.
            Era um grupo de combate o total de tropas e cinco camionetas civis.
            A poeira entranhava-se nos poros, por entre um calor intenso que os raios solares espalhavam sobre a terra.
Apesar das precauções habituais, a “malta” ia descontraída, fumando o cigarrinho e conversando. Todavia, com os sentidos alerta para o que desse e viesse.
            Naquela altura, era hábito dos “turras”, antes de iniciarem um ataque dispararem um tiro de pistola que servia d e sinal para os restantes elementos que compunham a emboscada, darem início ao tiroteio de flagelação. Havia história de que isso tivesse acontecido umas duas ou três vezes.
            Por isso mesmo, os homens do grupo de combate além de prescutarem ansiosamente a mata com os olhos, iam de ouvidos bem abertos à espera que surgisse o tal tiro.
            A coluna estaria a cerca de uns 45 quilómetros do nosso aquartelamento. Ao longe recortavam-se contra o horizonte os perfis dos morros cobertos de capim amarelo e de árvores.
            A estrada serpenteava por entre morros e planícies, de vez em quando, cortada por um pontão, sobre um riacho.
            Como a distância que separava a coluna do acampamento já era pouca, a descontracção era cada vez maior.
            Ao descer a encosta de um morro, do lado direito da coluna e nitidamente ouviu-se um tiro de pistola.
            Se um observador atento estivesse à distância teria visto que, no minuto seguinte, ninguém já se encontrava em coima das viaturas.
            Os mais retardatários eram os condutores civis e militares, com o problema de abrirem portas para saltarem.
            Após este tiro, caiu sobre todos um silêncio pesado, só cortado pela respiração dos homens.
            Todos os olhares se dirigiam para a mata à espera de localizar o inimigo emboscado. Nada. Silêncio.
            O chilrear dos pássaros voltou a escutar-se. Uns dois ou três minutos decorreram.
            Uma ordem de …”avance ao reconhecimento” por este lado, foi ouvida a meia voz. Neste preciso momento em que os nervos estavam sujeitos a uma tensão nervosa que fazia os homens suarem, e quando se iam a levantar, escutou-se nitidamente, vindo de outro lado da mata, um apito que rasgou os ares fazendo arrepiar…
            De uma das bermas da estrada junto ao terreno, uma voz clara, firme, disse:
            -For’ó árbitro!...
            Uma gargalhada surgiu, ofendendo com o seu quê cristalino os deuses da guerra. Logo a seguir, sem mais nenhum compasso de espera, começou o tiroteio de ambos os lados.
……………………………………………………………………………………….
            Tempos passados e o apito mais vezes se fez ouvir antes do tiroteio, e então toda a “malta” dizia:
            Fora o árbitro…
 
 

sinto-me:
música: Estudantina Universitária de Coimbra -Tunas

publicado por fercobanco às 19:13
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UMA NOITE DE PESADELO

Depois da explosão da mina que feriu o Teixeira, o “abre-picadas” como eu lhe chamava e após ter terminado todo aquele movimento e confusão, havia que pensar em evacuar os feridos.

            Assim se fez. Um dos grupos de combate fez escolta aos feridos. Foram evacuados, para a base dessa operação, para o Cuima. Na base da serra da Kanda, onde ela terminava, ou começava, o meu grupo de combate ficou emboscado, à espera… que os “turras” se fossem certificar dos resultados obtidos.

            O pelotão atingido montava a emboscada. O tempo passou. A tarde começou a cair, procurando o anoitecer. Seriam umas dezassete horas, quando o alferes mandou montar nas viaturas e regressar à base.

            À noite voltaríamos ao local. Rapidamente chegámos ao Cuima. Jantou-se. Voluntários se ofereceram para regressar ao sítio onde a mina explodira. De viatura avançámos até cerca de vinte quilómetros do objectivo. Aí, apeámo-mos das viaturas. A noite era negra. Viscosa. O cacimbo não deixava ver um palmo à frente do nariz.Se4ntiamos à distância os contornos da serra da Kanda. Impressionante, de estarrecer. Negra também como a própria noite, que nos cercava., fomos progredindo nas margens da estrada. Sentindo o camarada da frente, mas quase sem o descortinarmos. Sempre a andar.Com pressa em chegar ao local onde tinha rebentado a mina. Os ponteiros do relógio de quadrante luminoso indicavam que as vinte e três horas, já tinham acontecido há vinte e cinco minutos. Levávamos umas duas horas de caminho percorrido. O cacimbo começou a levantar-se. Notavam-se, agora, os camaradas da frente.

            Lembro-me que alguns caminhavam dormindo. Encostando as armas às costas do vizinho. Era uma sonolência bendita, na medida em que o cansaço não nos conseguia vencer. Expressamente proibido fumar. Lógico aliás! No entanto, talvez o fumo do cigarro nos ajudasse a vencer melhor o tempo. De repente, ouvimos nitidamente um apito longo, perto de nós. Instintivamente, deitámo-nos no chão. Ao longe um outro apito proveniente do facto de ter sido soprado um chifre de caça respondeu. Deitados no terreno, aguardámos os acontecimentos. Nada. Só a própria noite e os seus ruídos característicos nos responderam. Passaram-se cerca de quinze minutos. Levantámo-nos e a marcha continuou a caminho do objectivo. Alguns minutos decorridos, novo apito semelhante ao primeiro se ouviu. Novamente para o chão. À distância a resposta. Nessa altura já o cacimbo nos deixava olhar para o meio ambiente. Capim baixo lançava-se até à base da serra da Kanda, que ficava a uns seiscentos metros. Esse era o nosso lado esquerdo. Do lado direito, o capim ia misturar-se mais perto com as árvores. Núcleos de mata faziam desenhar, no horizonte visual, monstros indescritíveis, quais figuras fantasmagóricas de um arrepiante pesadelo.

            Mais tempo se passou. Novamente em marcha.Com os nervos em frangalhos, tensos. Dominados graças a um esforço titânico.Com uma vontade louca de abrir fogo para o capim.

            Os graduados tinham que se dominar e tentar dominar os soldados. O rastolhar das pequenas peças de caça provocava uma tensão arrepiante. Uma tensão que nos fez perder o sono e a noção do tempo.

            …Se ao menos um cigarrinho se pudesse fumar…Acalmava. Mas nem isso. Todas as atenções eram poucas. Havia que perscrutar o meio ambiente à espera, aguardando! Os passos quase que se não ouviam. Até a respiração era controlada, de modo a que não ajudasse a revelar a nossa posição. Tudo alerta.

~          De frente vem a voz sussurrada de:”Alto”. Ninguém se apercebia, sequer, que os relógios marcavam, nesse momento, quatro horas da manhã. Havíamos chegado ao local onde explodira a mina, no princípio da tarde do dia anterior. Rapidamente, os homens distribuíram-se pelos pontos estratégicos, que limitavam o riacho seco.

            Alguns ficaram de sentinela, outros tentaram dormir. Ninguém o conseguiu atrelado de água, que fizera explodir a mina ainda lá se encontrava, completamente desfeito como se um gigante possuidor de uma força poderosa, tivesse provocado o rasgar da chapa.

            Tudo no mesmo sítio. Da mesma maneira. Ninguém havia visitado o local. A manhã nasceu, bonita. Os que tinham montado segurança começaram a agitar os mais cansados. Tirando-os da semi – sonolência em que se encontravam.

            Na região limítrofe, foi feita uma pequena batida. A cerca de uns vinte metros do local onde nos encontrávamos, o cadáver de um “turra”. Abandonado com uma rajada de metralhadora nos intestinos. Estava encoberto pelo capim. Mais à frente e no “carreiro” que serviu para os turras s e desenfiarem, rastos de sangue demonstravam que tínhamos provocado, pelo menos, um morto e, provavelmente alguns feridos. Após essa verificação, comemos o “mata-bicho” e aguardámos as viaturas que nos viriam buscar, cerca das nove horas. Foi esta, talvez, uma das noites de maior angústia passada no norte de Angola.

 

 


música: Tchaikovski -Valse
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publicado por fercobanco às 19:07
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O ABRE-PICADAS, COMO EU LHE CHAMAVA...
   
         Apesar de tudo, aqueles vinte e cinco dias foram passados na mais sã camaradagem entre todos os elementos componentes dos dois grupos de combate.
            Tinham-se recebido ordens da base de operações, para regressar, logo depois da ponte reconstruída.
            Levantou-se o acampamento, recolheu-se o material nas viaturas e pusemo-nos a caminho. Felizes.Satisfeitos por regressarmos ao acampamento onde, pelo menos, havia uma refeição quente à nossa espera.
            Recebi ordens do comandante de pelotão, para que tomasse lugar na primeira viatura com a minha secção. Assim fiz. A meu lado o meu fiel “abre-picadas”, como lhe chamava. O pequeno Teixeira. Pequeno no tamanho, mas grande no seu comportamento de soldado. Calmo. Reflectido. Sempre pronto para as missões mais difíceis A nossa GMC arranca, e foi como se um sinal para que toda a coluna tomasse o andamento.
            Levávamos atrelado um depósito de mil litros de água. Em cima da viatura: mesas, cadeiras, móveis, espólio da nossa incursão em terras da serra da Kanda. Artigos apanhados aos terroristas. Várias colchas davam um ar garrido e alegre à coluna, como se fosse uma romaria. Romaria de homens de espingarda, de barba grande, cansados. Desejosos de regressarem à sopa de feijão quente, que o cozinheiro do acampamento preparava tão bem. Sim. Até porque as rações de combate já saturavam por terem que se comer frias, na maior parte dos casos…
            De repente, a coluna pára.
            A viatura, atrás da nossa, avariou. Descemos. Fomos ajudar a segunda viatura da coluna a retomar a marcha. Ah! Mas a tal GMC não queria andar. Parece que tinha jurado que nunca mais poderíamos comer descansados o tal puré de feijão quentinho que o 325 tão bem cozinhava.
            Lançou-se uma corda a um jipão e a coluna novamente se pôs em andamento, debaixo do sol, de um sol abrasador, quente, que prendia os movimentos, de um sol que emprestava à serra da Kanda matizes doiradas em reflexos das copas dos arvoredos. Olhei para trás. Vi aquela rapaziada, que tão bem conhecia, feliz, satisfeita, por voltar à base.
            Sem preocupações, apesar de sabermos que, à nossa volta, de um momento para o outro poderia começar o tiroteio, ou uma mina. Nunca se sabia.
            Todavia, cantava-se. Adivinhava-se o futuro. Um futuro que se deparava sorridente. Olhei para o Teixeira, o “abre-picadas” como lhe chamava. Disse:
            -Uf, que calor!
            O Teixeira sorriu. Olhou para mim e sorriu. Maquinalmente, levou a mão ao cachecol do camuflado e limpou uma gota de suor do pescoço. Ajeitou-se e colocou melhor a FN. Conversava-se.Toda a gente conversava. Por isto ou por aquilo. Só pelo prazer de falar. Só porque após vinte e cinco dias de mato, íamos dormir em camas, em colchões com lençois.
            Mais à frente, uma ligeira descida para um riacho seco, marginado por bambus.
            O condutor, com precisão, meteu o focinho da GMC em direcção ao riacho seco. Passaram as rodas da frente. As de trás. De repente, uma explosão. Gritos.Ai minha mãe! Ai meu Deus! Deus me ajude! Mãezinha querida!
            Fumo. Muito fumo negro. Negro como uma noite sem lua nem estrelas. Burburinho. Confusão. Ordens gritadas. Tiros. Rajadas. Dou por mim numa valeta.Ao lado da estrada. A meu lado vultos, ainda imprecisos, envoltos em fumo. No meio da estrada, corpos camuflados, manchados de vermelho. Um vermelho que se alastra. Olho mais acentuadamente. Um pouco mais calmo. Vejo o Teixeira, o “abre-picadas”, como eu lhe chamava, com o peito do camuflado desfeito, cheio de estilhaços, da mina.Pequeninos.Simples pontos incrustados no peito que arfava. Uma bota arrancada e só metade do pé. Sangue.Um dos testículos foi atingido.
            Sangue que banhava tudo aquilo. E gritos, dele, de todos. Uma voz de comando dizia:
            -Avance ao reconhecimento! Siga pela direita.
            Rajadas de metralhadoras tiros que iam. De tiros que vinham. De balas que zuniam por cima das cabeças. A bolsa dos medicamentos espalhada pela estrada. Tintura no chão. Naquele chão que absorvia e misturava tintura e sangue. Naquele chão sagrado pelo qual nós sofríamos. Nos batíamos. Naquele chão que magnânimo recebia os lamentos dos feridos, como que querendo levá-los às suas entranhas. Como que querendo guardar esse segredo do chamamento por uma mãe. Por Deus, por Nosso Senhor, pela Virgem.
            As pragas sucediam-se.Fortes.Viris.De homens ainda crianças. De homens de vinte e poucos anos, pretos, brancos, mestiços.Todavia, de homens que envergavam a mesma farda. Camuflados iguais. Sujos de poeira, de dormir no chão, de suor.
            Tal como tudo começara, tudo acabou. Um silêncio pesado, cruel, frio, que se abateu sobre nós. Sobre a Natureza. Até as aves se calaram. Nem as folhas das árvores se mexiam. Até o vento aquietou num silêncio de túmulo. Alguns minutos assim de silêncio. Como se o mundo tivesse acabado.
            Começaram a levantar-se os gemidos. Dos feridos. Dos que eram socorridos pelos enfermeiros. Por um que deitava sangue pelo nariz e tinha um braço esfacelado. O pior era o Teixeira, o mais ferido.
            Mas no entanto, aquele que tinha um sorriso nos lábios e nas mãos o crucifixo de ouro, que trazia ao peito, esse era o Teixeira, o “abre-picadas” como eu lhe chamava.
 
 

sinto-me:

publicado por fercobanco às 01:17
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